quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Sagitário está chegando!







   Logo após o Carnaval (em data a ser anunciada com a editora), o segundo livro virá ao mundo... e sob o signo ígneo, impetuoso, brusco mas determinado de SAGITÁRIO.

   Por quê SAGITÁRIO, se sou canceriano? Nada a ver com Astrologia. Ou quase.

   "Viagens e Delírios" foi o impulso inicial nas alamedas da literatura, um 'dèbut' para que o sonho não ficasse apenas no reino próprio e adequado da imaginação; era o convite não só aos devaneios que me cercam até hoje como também é o lançamento dum desafio íntimo: fazer uma literatura diferente. Não no sentido da angariar ibope mas de inovar a maneira de se narrar uma história qualquer, fictícia ou não. Todos os escritores são impulsionados a escrever por influência de estilo em algum grande mestre da pena; mas incorrem numa espécie de comodismo quando navegam superficialmente nas águas de outrem. Vê-se que, mesmo tendo a novidade nos textos, a narrativa acompanha uma trilha que já fora desenhada por outro. Não mais se vê uma mudança radical na técnica de narrar por medo, segundo um amigo maranhense, de ter seu estilo tachado de confuso ou ambíguo. Quando escrevi "Viagens" sabia sagitarianamente das armadilhas por onde a ousadia me conduziria. Mas teimei, em nome daquilo que sempre acreditei na literatura em si, aquilo que determina, inclusive, o destino de idiomas nacionais ao longo de milênios, a deriva da língua. Mesmo o Português que falamos com tanto orgulho, já foi o palavreado chulo das sobras latínicas que os bárbaros adaptaram às suas tribos em épocas tenras do Ocidente Cristão. Prepotência da minha parte? Não: eu não quero ser o grande "reformador do idioma", nada disso. Acho, apenas, que um idioma tão rico e mal usado como o Português deveria ousar mais e melhor quando levamo-no para a brancura virginal duma página, ansiosa por palavras. 

      Claro, há os efeitos colaterais: levei mais de um ano e meio para dar cabo de (apenas) trezentas unidades publicadas - em parte, por falta dum contrato de marketing para escoar minha primeira edição. Vergonhoso revelar tamanho fracasso editorial, não? Mas estou feliz e realizado com cada um desses "fracassos". Pois cada um dos escolhidos com esse livro de capa azul-de-sabóia, emoldurado com o "Navio" de Salvador Dalí, sabe que tem uma obra de trabalhada e cuidadosa qualidade nas mãos. Não um fenômeno editorial, com canapés e scotches fartamente degustados e vendidos numa só noite de livraria cheia, mas um livro onde cada palavra teve o mesmo carinho e atenção dedicada por mim e pela excelente equipe da Editora Muiraquitã, com quem tive o prazer e a honra de trabalhar. Posso dizer com sinceridade e amor no peito: "São minhas, as palavrinhas gestadas e paridas neste livro; podem confiar, elas valem cada centavo que investiram, elas são a minha declaração de amor à Literatura Nacional". E quem me conhece, sabe que eu AMO, de verdade, as palavras. Nem sei como é que estou fazendo História...

        SAGITÁRIO - Contos e Crônicas, é a continuação desta cruzada a favor da melhor utilização possível do nosso idioma, com mais ousadia e suor. Vem com alguns textos já conhecidos no Recanto das Letras e Sina de Escritor, mais alguns inéditos, que vão abrir o apetite do leitor com fome de novidade no reino das letras. Como o signo que encabeça o tomo, a narrativa vem repentinamente diferenciada, porém um pouco menos rebuscado. E com uma novidade (que espero ansiosamente a colaboração da nova editora no quesito 'orçamento'): ilustrações. Inclusive de viagens feitas por alguns lugares do Brasil em que estive por amar tanto História quanto Literatura. 

      Portanto, amigos e seguidores: "SAGITÁRIO" está chegando. 

      Só posso garantir uma coisa: de mesmice ou vulgaridade ninguém será atingido. A flecha literária do Centauro tem um alvo certeiro, O PRAZER DUMA BOA LEITURA. Sempre!

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Ibericum Peregrinatur

Jorge Luiz da Silva Alves


            Em Lisboa, consagração: animado pelo galope de dois cavalares músculos em bombear hemodinâmico, abandonei-me por inteiro à peregrinação pelos encantos da peninsular paixão que carregara-me, meses a fio, em incerta e tempestuosa diáspora de meus credos arraigados; em Compostela, fiz o inverso itinerário dos monges do formalismo ético-social, abalroando penitentes, néscios no que tange a autenticidade dos desejos; em Toledo, armei-me para lutar  - aço contra aço - contra as maquinações das abandonadas ao relento emocional; em Madrid, tivemos nossa Guerra Civil: dois miúras enfurecidos a impôr caprichos; Valência acolheu-nos em saborosas abluções à beira-mar; Sevilha, outra cruzada , católico-inquisidor versus moura-encantada; Barcelona, fizemo-nos encantadores para o mundo e monstruosos para nós mesmos... enfraquecidos por tantas contendas, resolvemos: um último e vibrante flamenco antes de transpôr os Pireneus, o nosso Rubicon - mas não ouvimos a trompa ou o retinir da durindana de Rolando nos desfiladeiros de nosso amor caliente, inigualável porém frágil e vulnerável ante a traiçoeira horda basca sobre o Magno desejo de imperarmos sobre tudo e todos, invejosos e certeiros... o epílogo de uma história tão bela, pura e maravilhosa que, agora longe da tempestuosa e fascinante hispanidade que revestia sua alma ígnea,merece um lugar na Eternidade, entre sonhos belos, numa fantástica e inesquecível viagem, Quixote e Dulcinéia, Eurico e Hermengarda, eu e vocês, saudades... Adiós, e vaya com Dios.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Adeus Complicado

Jorge Luiz da Silva Alves



           Despedidas são complicadas para mim. Vivo te confundindo toda vez em que, já na porta d'entrada, suas esquivanças são contornadas pelas centenas de mãos que apresento nos contornos nacarados – levemente batizados por toda uma noite de passeio saboroso de meus lábios em cada esquina da libido - , e lá vamos nós, novamente, no muxarabi, no tapete pseudo-persa, nos almofadões turcos da rua da Alfândega... e lá se foi tua urgência com suas irmãs na floricultura, no consultório às duas da tarde, nas Casas Bahia para devolução com notas de compra; e eis você, seminua e implorando por mais, mais, mais; e eis-me aqui, profano longinus a ferir tua agenda e todo o maldito calendário na sagrada faina do amor sem travas ou limites! Jazida no chão, em sudário delível pela paixão descontrolada, detonada que fôra por um 'adeus' sem muita vontade, fizemos com vontade extremada a mais saborosa despedida de nossas vidas... para, amanhã, depois ou, sabe-se lá quando você volta por essas bandas. Uma coisa é certa: se te levar, de novo, à porta para despedidas, serás sempre bem alimentada com boa lenha-de-lei por este foguista da tua inapagável fornalha...!

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Leitura labial na Pavuna

Jorge Luiz da Silva Alves






        Sabadaço. Metrô, fim da linha. Passarela estreita, oscilava ante o tropel de milhares de transeuntes; sob o viaduto, a fétida presença dos virulentos excluídos; rua principal, tão obstruída quanto as artérias encolesteradas dum mórbido sedentário. Calor. Onze da manhã. Por todas as ruas, vielas, becos e praças, aquela impressão (típica dos municípios da Baixada Fluminense) de que tudo está empoeirado e barrento. lanchonetes, lojas de roupas, artigos evangélicos, hotéis, motéis, pensões, cinemas...tudo espremido e saturado, autêntico formigueiro humano, qualquer movimento mais acelerado é um suplício saturniano - trabalhoso, moroso, difícil, tenso, severo. Não há luxo ou sofisticação nesse trecho rico e pulsante das fronteiras municipais: aqui, o básico embeleza, a necessidade é status, até as conversas do povo pavunense evocam, de alguma forma, a carência e obrigação de ter, ser, e querer algo da vida e das pessoas, nada da "boemia-zona norte", "luxo-zona sul" ou "descontração-zona oeste".
     Lidiane largou do trabalho cedo (milagre!); antes de apanhar a condução para casa (ela mora em Olaria), falou com um conhecido e resolveu ir até à lanchonete onde o namorado Gilmar trampeava, heróico, contra uma repentina multidão que decidira, de chôfre, encher as tripas de pastel e caldo de cana, àquela hora do dia.
    Gilmar tentava o impossível: atender os inúmeros pedidos e gesticular para Lidiane, retida na entrada pelo populacho faminto. A moça até achou graça da pantomima; só não achava engraçado o Gilmar, em sete dias na semana, não conseguir um só minuto com ela por causa do emprego.
    Irritada, ela gesticulava de volta.
    Ele, à maneira de Chaplin, atendia, olhava para ela e meneava; moto-contínuo risível.
Lidiane terminou por rir. Melhor que arrancar os cabelos (além do quê, a chapinha custara-lhe caro!). E, em expressiva mímica labial, voz bem "p'rá dentro" o quanto possível, começou a prosaica representação, walkie-talkie humano:
- Olha-tô-indo-embora-não-me-espera...
- Heeein?! - Gilmar, bloco na mão, ia sendo, cada vez mais engolido pelo maremoto de braços e pedidos.
- Porra-eu-tô-indo-embora (Lidiane, já invocada);
- Ô Lidííí, eu quero falar... peraí, mermão!, já te atendo...Ô Lidííí...
-Fui-olha-aqui-seu-mané-o-Celsinho-do-açougue-aquele-da-caxumba-gigante-quer-sair-comigo(gesto de comer)-vou-ficar-com-ele-tem-mais-tempo-dinheiro-e-um-puta-carrão(gesto de proporções)-você-é-muito-com-pli-ca-do-fui(gesto de adeus)-te-chau!!!
    E lá se foi Lidiane para Olaria, de carona com Celsinho Caxumba-Gigante, o açougueiro, para o abate de mais uma vitela largada, lá se foi Lidiane nos braços (ou patas)das saúvas humanas, num Toyota Corolla, no trânsito caótico de um bairro caótico, de um sábado abafadamente caótico, para longe de um indeciso, ocupadíssimo e atoleimado Gilmar. Lá se foi outro relacionamento na agitação frenética deste universo paralelo e diferenciado que é a Baixada Fluminense. Fim da linha.



Histórias de tarados e assassinos





Chuva fina. Venta muito.
Lindaci, dezessete anos, normalista, segura firme a inútil sombrinha barata que verga ao sabor do mau tempo. Olha ao longo da estrada, ambas as direções, aflita. A que horas chegará?
Ponto de ônibus deserto, longe do centro do bairro de Campo Grande, Rio. Lindaci tenta ficar longe de uma enorme poça formada na deprerssão do asfalto. A chuva castiga-a um pouco. Lindaci enerva-se um pouco mais. Saia de pregas bem curta, a exibir muito das grossas e reluzentes coxas negras. No outro braço, um fichário de acrílico. Confiou no solzinho mentiroso da manhã e deixou a bolsa em casa. agora, paga pela burrice atuando como acrobata. E o vento aumenta, a chuva espalha-se mais, Lindaci só está seca da cintura para cima. Suas coxas brilham, as meias de cano longo colam nas canelas. Mais que nunca, estica o pescoço ansiosa, feito Chapeuzinho nos contos infantis.
"Mas que saco!"
No poste da parada, dissolvendo-se aos poucos, um cartaz com foto em preto & branco de mais uma estudante desaparecida nas imediações. Outra que não teve chance, ou tentou e foi abatida, pensou Lindaci, olhando a foto borrada. "Se bobear, será a minha vez; será que..."
Diminui o vento, aumenta a chuva.
Ver aquele cartaz azedou de vez o seu início de tarde. Já estava de saco cheio com as recomendações sobre tarados e assassinos, tudo de mau que acontece naquele trecho outrora tão calmo. Em breve, cuidados com o coelhinho da páscoa, o E.T., papai noel. Lindaci tinha certeza que, se o tarado fosse o Murilo Rosa ou o assassino, o Clive Owen, todas as suas amigas já estariam mortas. Lembrou da Mônica, do terceiro ano; lembrou das vítimas do motoboy paulista, dos tios-sukita da vida. Algumas deixavam-se levar pela aventura, outras eram forçadas. Todas mortas. Algo precisa ser feito. Polícia? Deixa p'rá lá. Senão, nenhuma morreria. A do cartaz estaria viva - a coitada tinha oito anos, credo!, oito anos, que cidade maldita, essa! - e ela queria ficar viva. Pegou o celular e ligou: mas que porra de demora é essa, daqui a pouco danço eu...
E lá vem mais vento.
E tome chuva. Ainda estava só, naquele ermo.
A sainha de pregas levanta com a lufada, biquini minúsculo, mãos ocupadas, deixa estar, ninguém está vendo, voa, passarinha, voa...
Farol no rosto. Nem percebeu o quão perto estava, não se tem visão decente, chuva aumenta.
Peugeot 406, prateado. "Que máquina", delira baixinho Lindaci, filha de gari e enfermeira, negra, pobre, jamais entrará num carro desse, vai , moço, vai embora, não diminui não, não complica, não inventa, tú não viu nada, ou viu?, vai...
A máquina encosta bem rente às pernas de Lindaci. E começa a negociação.
Coroa educado, juba grisalha ("mulet" prata, quase igual ao carrão), oferece carona cheio de rapapés. Lindaci acha engraçado, mas explica que não precisa, o Richard Gere insiste, liga o MP3 de propósito, cheio de filantropia, cheio de amor para dar, de más intenções, Lindaci estremece de frio e fica na silenciosa torcida para que o celular toque ou chegue a cavalaria: a porta da nave espacial se abre, acabamento de couro finamente trabalhado, aroma automotivo diferente, Jamiroquai na caixa, Lancelot sorri, Guinevere cede. Pronta para abdução. Entra sem saber direito se quer ou não quer, o vento sopra mais forte, a sombrinha voa de vez das mãos, recusando-se a embarcar. A porta fecha.
No banco de trás, uma negra e enorme sacola de viagem.
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Pátio coberto do Colégio de Instrução. Day After.
Intervalo para o lanche, a tevê da cantina tem seu volume aumentado: quase a totalidade dos presentes é de moças. Boa parte delas, apreensiva; um outro grupo, indiferente. Todas ligadas no telejornal local. Que começa: "Mais uma vítima de assassinato encontrada num matagal próximo ao Colégio de..."
Queda de luz. Alvoroço.
O zelador, sem querer, desligou o disjuntor errado lá na secretaria. Corrigido o erro, só houve como ver, na tevê religada no timer, o Peugeot 406 sendo retirado do matagal. Portas abertas, objetos do porta-luvas espalhados, sangue no estofamento caro, um fichário de acrílico igual a muitos. Corpo, nada. Quer dizer...
- Olha lá! - gritou uma das alunas - Deus do Céu, é monstruoso o que fizeram...
Todos se horrorizaram com o estado do cadáver.
Menos a mocinha com a enorme sacola. E sua amiga - a que chegou "atrasada" com a carona, deixando-a à mercê das intempéries, seguindo-os de longe e aguardando o fim da emboscada.
Algo precisa ser feito.
Vá que um deles seja o tarado...

domingo, 24 de outubro de 2010

O amor de Julia nos tempos DA coléra

Jorge Luiz da Silva Alves




      Diante do espelho, Julia repassou cada gesto daquela noite fantástica, desde o olhar penetrante, intimidante, até o másculo arrebatamento através das muralhas de proibições impostas por um contrato mal redigido com um sócio beócio; sem-jeito mandou lembranças e avisou ao acastanhado observador de suas entranhas afogueadas que já não mais agüentava o minucioso exame de sua súbita pudicagem na mesa do restaurante, tanto quanto o vinho espetacular que auxiliava a metamorfose da borboleta respeitável em mariposa esgarçada por desejo e reparação dos tempos perdidos na socialização de sua natureza inquieta, trazida à tona pelo odor animal saído do tórax imberbe protegido por seda cafajestemente desabotoada diante de si, um colombiânico traficante de luxúria incendiando a renda de suas urgências por baixo da mesa. Celular desligado para que a tia magrela não a caçasse – muito menos o beócio co-acionista de seus futuros - , embrenhou-se na mata profana dos repousos d'estrada, cancelando compromissos e clientes, para se transformar na maratonista de meia distância entre a loucura e a razão, submissão e controle, regras e rasgos... tudo muito rápido e inseguro, porém deliciosamente belo, inesquecivel, único.

      Noite alta, silêncio baixo em toda casa, desde o bebê ao beócio roncador, Julia repassava, diante do espelho, cada gesto daquela noite fantástica, dançando de pegnoir diante do espelho, íntima das sombras e dos sonhos, senhora dos parcos instantes de felicidade que lhe sobrava em vinte e tantas horas de escravidão indecente do seu destino, marafona poderosa a zombar das agendas dum cafetínico e colérico mundo de rotinas e competições. O amor, contra os tempos da cólera.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Debreceni - causa mortis



          O que não faltou foi espanto; ora, o resultado da investigação indicaria o óbvio: envenenamento. Apurou-se o seguinte; brigas intestinas com a mulher (portadora não declarada dum amante rapace), com o filho (homossexual enrustido e caso dum concorrente profissional do finado) e até mesmo com a amante (preterida por pirralha estagiária no escritório); o entra-e-sai do dia-mortis fôra intenso e a chance aparecera, generosa, de várias formas, pois a vítima entretinha-se no sofá diante da tevê com a cerveja E O COPO na mesinha ao lado, ligeiramente atrás do sofá, mais as pipocas (agora esparramadas sobre o obeso cadavér) no colo. Mas, mesmo antes de iniciar a rotina pericial do crime, o que redundaria em semanas de modorrenta procura por evidências pelo óbvio, Aryosto Spínolla perguntou ao legista a provável hora da passagem do sibarita para o Além – e sorriu gostosamente, assustando a todos os presentes. Antonio Paulo, sabedor das idiossincracias do ex companheiro de Polícia Civil - forçosamente aposentado por conta de um inoperável projétil, perigosamente alojado na base do cérebro – sorriu com a resposta que provocara o espanto geral:

         “Puta que o pariu, foi Debreceni!”

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         O que não faltou foi paparicação. Aliás, uma rotina incômoda para o aposentado da Civil, acostumado a vislumbrar o óbvio no palheiro de falsas agulhas; Antõnio Paulo repetia o cerimonial (merecido) de encher O COPO (é um perigo, esquecer o Caps Lock do Notebook ligado!) do ex-agente, agora investigador particular com o melhor vinho chileno que conseguira na conceituada adega de Campo Grande, Rio; os 'sherlockholmes tupiniquins' levaram três semanas para constatar o que o clone do professor Emmet Brown – com a basta cabeleira grisalha emprestando-lhe ares de louco prestidigitador do crime – descobrira, só de olhar o cadáver refestelado no sofá. Bastou saber a hora em que o Debreceni, da Hungria, derrotara ao Barcelona dos múltiplos cracaços no Camp Nou catalão, e saber se o finado empatara toda a grana da família – e do escritório – em apostas, para ter cem por cento de certezas. Certezas que o malucão grisalho sacara logo de cara. Causa mortis? Infarto fulminante ali, no sofazão velho de guerra – mais amigo do que o bando de harpias parentais, agradecendo aos Céus tão oportuna zebra na Champions League.

        Aliás, até na Espanha... o que não faltou foi espanto! E infartos...




sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Troca de Camisas

                                               Troca de Camisas
                                                           Jorge Luiz da Silva Alves





Não que Alice não gostasse de futebol; afinal, era tão aficionada quanto um americano pelo "soccer". Mas, ali estava Gustavo, com aquele jeito de quem pedia colo de mãe. E tarado por futebol, para seu desespero. Fazer o quê, mundo imperfeito, homens perfeitos, tudo por ele: até mesmo assistir aquele raio de jogo que decidiria - se bem entendera - a semifinal de um troço qualquer entre o Flamengo e o Vasco da Gama. Tudo bem; já passara da hora de procurar alguém. Precisava de alguém.
E Gustavo apareceu.
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A aparição se deu num dia de jogo. Vila Isabel, naquele remodelado barzinho defronte à famosa homenagem a Noel Rosa.
Animada turba rubro-negra chegou juntando mesas e cadeiras do trecho em que o bar avançava pelo calçamento; e ali começou ruidosa comemoração pela vitória de goleada sobre o Botafogo, alegria capitaneada por Gustavo, num surrado uniforme papagaio-de-vintém de má memória para os que se lembram do malfadado centenário do clube da Gávea. Palavrões, gracejos, exageros verbais de todas as formas alimentados pelo excesso de álcool . Freguesia mais séria pedia a conta, prevendo problemas. Outros, descontraídos, entravam no clima. Ame-os ou deixe-os; naquela noite, era impossível ignora-los. Alice que o diga: recostada no garçom de bronze(aguardando eternamente pelo pedido do compositor), observava a intensa alegria do outro lado da rua. Por breve instante seus olhares se cruzaram. E ele pôde vê-la, o rosto pequeno e sardento, cabelos ruivos, corpo sinuoso começando fino, de pequenos seios, e terminando em generosas ancas, bem desenhadas por comprida saia cigana. Sorriu. E, sem que a turba percebesse, em tres gestos discretos, mandou-lhe um beijo. E sorriu de novo, daquele jeito safado, com aqueles olhos pequenos. Alice viajou: "Ele não é desse mundo, o que é isso!" E foi embora, sorrindo também. Para desapontamento de Gustavo, que já ensaiava uma desculpa para atravessar a rua. Isso foi no início de dezembro.
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A segunda aparição se deu já na rampa de acesso às arquibancadas do Maracanã.
Ah, o amor! A necessidade do amor para continuar a viver! Por ele, desafia-se convenções,realiza-se prodígios, perpetua-se loucuras. Como aquela, de aguarda-lo próximo à placa do Milésimo Gol, a divisória das facções rivais, lado esquerdo das cabines de rádio o santuário rubro-negro, gravara o nome da torcida organizada a que ele pertencia. Chegou a pensar em ir à caráter; mas, aí, seria o cúmulo da loucura...
- Você não morre tão cedo.
Fechou os olhos contendo o susto, com a voz às suas costas. Por onde ele entrou?
Agora estava com o segundo uniforme. Antigo - não só pelo modelo, com as duas faixas nas mangas, como pelo próprio tecido, puído e apertado. Ele percebeu e explicou que era a "Relíquia do Mundial", amava aquela camisa. Ela adorava sim, o tanquinho que sanfonava a blusa. Melhor: não trouxe a corte consigo. Advinhou? Seria vidente?
Ocuparam seus lugares na arquibancada não tão cheia como em outros tempos do clássico. Resignada, assistiu ao primeiro tempo, o rubro-negro vencendo o Fluminense com certa facilidade. Vez ou outra, algum chato da Organizada solicitava sua presença degraus acima, ao que ele desconversava. No intervalo, conversas: ele, falando de suas dificuldades no serviço, seu tempo livre para o futebol e eventuais noitadas - as que valessem a pena. Ela,despejou seu embaraço para cuidar da mãe e manter a ambas ali mesmo na Vila, principalmente após um acidente de carro que quase vitimou as duas, sua recuperação rápida e, a da mãe, mais lenta, após coma profundo e risco de vida. Contou também do amor que a mãe possuía pelos assuntos de cinema e televisão, os sonhos com os galãs das telas, o glamour das atrizes, os programas favoritos. Gustavo sentiu, em cada palavra de Alice, a profunda afeição pela mãe que já não mais saía de casa por causa das seqüelas físicas e psicológicas daquele trágico evento. De tudo que pudesse fazer para deixa-la feliz. Até que o segundo tempo se reiniciara, a atenção do rapaz fôra desviada para os marmanjos do gramado e o assunto morreria por quarenta e cinco minutos.
Faltando quinze minutos para acabar o jogo,uma surpresa: Alice foi literalmente rebocada do local por um homem visível e repentinamente apaixonado.
Tanto, que lhe revelou alguns segredos do estádio que freqüentava desde os catorze anos de idade.
Um deles, uma pequena porta enferrujada no anel externo mais alto do estádio, passadiço para um trecho esquecido desde os anos cinqüenta. Nem mesmo a turma da Manutenção sabia daquele muquifo. Nem mesmo ela sabia estar preparada para tantas emoções. Mas ele, sabia. Desde que pôs os olhos naquela mocinha sardenta na praça, um domingo atrás. Desde que, entre beijos, desceu-lhe a saia, revelando mistérios gozosos.
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Pouco antes do Natal, a retribuição.
Alice matutava: "Será que estou forçando a barra?" "Ele virá?" "Será Gustavo o homem certo?" Por fim,parou de pensar. Afinal de contas, seria sim a vez dele, o sorrateiro, o forasteiro, dar suas mostras de renúncia. E, de mais a mais, ela se entregou para ele em Seu Santuário. Mais uma vez ("Oxalá fosse a última"), iria com ele ao estádio ver, desta vez, a tal semifinal entre Flamengo e Vasco. Porém,promessa é dívida: iria até sua casa firmar um compromisso, faze-la feliz eternamente. E chega de mistérios; é hora de retribuição, sim. Saber se,de fato, ele é o homem que a abastecerá de vida.
Antes de dobrar no Boulevard, ele apontou na rua à esquerda. Sorrateiro, como sempre.
"Como ele faz isso, droga?"
Pelo menos, largou de vez da corte.
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Flamengo e Vasco da Gama foi um jogo tenso. Aliás, como sempre. Provocações de ambos os lados, ameaça de invasão da Força, ameaça de invasão da Jovem Fla, a situação só ficou boa quando o gringo fez o golaço de falta para o rubro-negro. O acesso e a saída do estádio foram tranqüilos para o casal porque aquela tem sido praticamente a casa de Gustavo desde os catorze anos, conhecedor de cada atalho. Alice suspirou aliviada ao sair do Santuário.
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- Então, é aqui que você se esconde? - brincou Gustavo, boca de cupido em deboche.
- Vem, vamos conhecer a minha mãe - Alice segurou-lhe o braço,passando pelo enferrujado portão.
O amor, o amor. Só mesmo o amor, foi o que pensou Alice ao chegar em casa com Gustavo: uma miniatura de um palacete mourisco. A bem da verdade, apenas a fachada; deveria ser moda na época em que foi construída aquela casa. E em estado lastimável: qualquer passante diria estar abandonada a residência.
Num interior ainda mais decrépito, uma senhora, lenço na cabeça e feições bem enrugadas, virou-se lentamente na cadeira de balanço ao vê-los entrar.
Alice apresentou Gustavo com a alegria dos apaixonados.
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Meia hora conversando pequenas bobagens, e Gustavo pediu licença para ir ao banheiro.
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Ao sair, deparou-se com a mãe de Alice, de pé e apoiada com dificuldade numa bengala. a outra mão segurava uma revista. Fisionomia grave:
- O que aconteceu entre vocês?
- Nada que a senhora desconheça - um tom levemente pedante. Ele sabia que essa coisa de "visitar a mãe" daria rolo.
- Rapazinho,não complique o que já está mais que complicado.
- E o que estaria complicado ("A doida falou do passadiço?")?
- Minha vida. Ou o que resta dela.
A seguir, estendeu-lhe a revista já dobrada em determinada página.
Revista velha, amarelada. Gustavo lembrou-se do que Alice falara, sobre o gosto de sua mãe por tablóides do cinema e tevê. Viu, sem muita paciência, fotos e reportagens de artistas nacionais e estrangeiros. A foto maior trazia um ícone do cinema americano, camiseta apertada, a gritar o nome da amada numa cena de um filme baseado em Tennesse Williams.
- Brando... não percebe, hein,não percebe?
- Sei, estou lendo: Marlon Brando - Gustavo cruzou os fortes braços, aborrecido.
- Você gosta mesmo dela?
Gustavo levou dois ou três segundos para dizer que sim. Um tanto enfadado.
- Ela te falou do acidente? - repentinamente, os olhos da velha faiscaram.
Por um instante o rapaz pensou que a velha remoçara. Era um olhar intenso, vivo, negro como a noite.
- Falou.
- E então?
- Achei estranho.. ela...
- Ela disse tudo?
- ...disse qualquer coisa sobre a senhora ter que agradece-la por ainda estar...
A velha interrompeu a explicação e começou a falar de um modo mais intenso, tremia muito; mas aqueles olhos ainda faiscavam. Parecia estar sufocada por dentro, destilava força, desespero, tudo isso num envelhecido invólucro: uma força incomum para a idade:
- Agradecer?! A picape subiu a calçada e saiu levando três, quatro, levou a nós duas! Eu não queria sair de casa, alguma coisa dizia para não sair,mas ela sempre foi egoísta, saiu me arrastando para a rua, não queria!, ela jamais gostou de mim porque papai me amava, ele queria me levar embora daqui, ela é louca, a família dela só tem loucos varridos, bruxos... não entendi nada quando acordei, estava no hospital, tudo doía, não entendi quando olhei para ela na cama ao lado...ela era eu e eu...
A velha parou, subitamente. Boquiaberta, fitava o rapaz de camiseta apertada. Odiou a sutil ironia preparada pela jovem, tão confuso quanto ela, todos esses anos. Deixou a revista cair no chão e balbuciou:
- Quero sair... quero sair... me liberta dessa prisão, pelo amor de Deus...
Gustavo, não entendendo patavinas, observava a prisioneira desabar no chão com as mãos a socar o peito. Ia ajudar a pobre alma. Aí, sentiu a mão no seu ombro.
Virou-se.
Alice estava completamente despida. Sorrindo. Um sorriso diferente. Não era o sorriso de Alice.
- Vem, Kowalski. Vem, com sua Stella...
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Em junho, o inverno no Leblon não chega a ser exatamente como a compositora gaúcha descrevera. Na areia próxima ao canal, poucos surfistas ousavam desafiar as marolas de meio a um metro de altura - excelentes para os iniciantes do circuito - formadas pela ressaca da estação. Alice já se habituara a reconhecer amadores e profissionais pelo tempo que flanava por ali no calçamento da Delfim Moreira. Um deles chemou a atenção, não pelo desenvolto cavalgar nas ondas, mas pela semelhança de atitude ao abordar a moça deitada na areia que dava toda idéia de ser sua namorada - ainda. O tórrido beijo ali, deitados à milanesa, trouxe-lhe recordações bastante gozosas. Muitos passos além da eternidade.

F O M E




  Fome
   Jorge Luiz da Silva Alves

  
Havia algo mais no ar, do que, tão somente, os aviões de carreira.
   Havia uma dupla angústia.
   Corações blindados contra uma série interminável de infortúnios e decisões duras - certas, porém duras.
   Havia a esperança de um eflúvio momentâneo de ternura naquelas palavras que surgiam, rápidas e alvissareiras, no site de mensagens. Havia a esperança. Uma dupla esperança.
   Mas... havia algo mais no ar...
   Algo pendente. Que precisava ser feito. Antes que a vida escoasse, ralo abaixo, de vez. Antes que a velhice dominasse o cérebro - pois o corpo já sucumbira à necrose do tempo - algo além da angústia, das blindagens, infortúnios e decisões. 
   Havia a fome da alma.


  
HYERONIMUS, diz: "Acho que chegou a hora de nos despedirmos."
  
DESDÊMONA, diz: "Porrrr quê?"
  
HYERONIMUS, diz: "Não temos mais o que dizer um ao outro... não percebe? Esgotamo-nos mutuamente; sugamos tudo que podíamos sugar um ao outro, não temos mais segredos. A magia some quando os segredos somem. Não é assim com os mágicos cujos segredos são-lhes desvendados?"
  
DESDÊMONA, diz: " Seja, então, o meu 'Mister M', vire-me pelo avesso, não ligo, mas...porrr quê? Logo agora, que o principal se faz necessário?"
   
HYERONIMUS, diz: "...não posso."
   
DESDÊMONA,diz: "Então, sua magia é truque, sua Fé é vã, seu amor é brisa..."
  
HYERONIMUS,diz: "Mulher, não cite as Escrituras, deixe Deus fora disso, meu amor é fogo que consome corpo e alma..."
   
DESDÊMONA, diz: "Um ano! Um ano de enigmas, de volteios, falácias e luzes em túneis sem fim: um ano que vc vai jogar na sarjeta mais abjeta se, assim, me escapares..."
   
HYERONIMUS,DIZ: "Ei-lo - e é aqui, o porquê da questão - ei-lo!"
   
DESDÊMONA, diz: "Eis, o quê?"
   
HYERONIMUS, diz: "Por quê ESCAPAR?"
   
DESDÊMONA, diz: "Ora...é só jeito de falar, quê!"
   
HYERONIMUS, diz: "O que fizestes com o pobre rapaz... acha certo?"
   
DESDÊMONA, diz: "Cássio? Ah! Ele é jovem,  não haveria, desde o início, como ficarmos...ele sabia! Além do quê já tenho problemas com Otávio, aquele ciumento, doente; outro dia, recitei Bilac, só para aturdi-lo... Estou cercada de gente chiclete, uns no interesse, outros na carência, todos me apoquentando. E só tu, que perscruta a minha alma, me é fugidio. E agora, sei vai assim, ao léu, pôxa!"
   
HYERONIMUS, diz: " Eu tenho fome de vc. Da tua alma."
   
DESDÊMONA, diz: "Então?!"    HYERONIMUS, diz: " '...somos iguais em desgraça'..."
   
DESDÊMONA, diz: " 'Blues da Piedade', Cazuza; conheço a música, não me enrola. Eu quero..."
   
HYERONIMUS, diz: "Abrir a caixa de Pandora?"
   
DESDÊMONA, diz: " Não me pega mais, 'M': o ultimato é meu. Quando? A fome não espera. Nem a vida..."
   
HYERONIMUS, diz: ".............."
    (
DESDÊMONA acabou de pedir a sua atenção!)
    (
DESDÊMONA convidou vc para uma conversa em vídeo)
   
(HYERONIMUS recusou o convite para uma conversa em vídeo)
   
DESDÊMONA, diz: " ?Que pasa, cabrón?"
   
HYERONIMUS, diz: "Aguardo..."
   
DESDÊMONA, DIZ: "????????"
    
HYERONIMUS, diz: Abra a caixa, Pandora; não é o que deseja, há tanto?"
   
DESDÊMONA, diz: "Quer... dizer..."
 
   HYERONIMUS, diz: " Open the door, my darling".
    (
 HYERONIMUS parece estar em off-line)
    (
DESDÊMONA parece estar em 'ausente')
    Havia algo mais no ar; algo que a descerebrara, a tal ponto que parecia esvoaçante mariposa, hipnótica, ante um halo de baço luzir; inquieta, olhou o último obstáculo entre ela e a provável felicidade - uma felicidade apenas ensaiada em versos, conversas, quenturas verbais e inconstâncias de ambos os lados. O receio fôra-se derretendo com o fulgor que ardia dos bosques meridionais de sua outrora plácida e tépida existência; abriu a trabalhada porta de cedro envernizado e sorriu:
    O notebook estava aberto sobre a mureta da varandinha.
    Sorriu de novo. Um sorriso meio besta.
    Pudera - foi só o que deu para fazer. Sorrir.
    "...porque sorrir de tudo é desepero". Lembrou que ele adorava Barão Vermelho e Cazuza; os versos de Frejat escoltaram-na até o próximo logradouro de sua alma, sabe-se lá onde; não tinha certeza de mais nada, ali, idiotizada frente a um notebook na varandinha, a lembrar de Frejat. E do gosto que ele demonstrara, uma vez num passeio, na feirinha da Praça XV, por lâminas de combate. Como aquela, que encerrara de vez o bate-papo e desadicionara seu endereço vital-virtual da Grande Rede dos Vertebrados...
    Havia algo mais no ar.
    Algo a fazer.
    Ele fechara o Note, retomara o aço nas mãos e, no PC-órfão que luzia toda a penumbra (do antigo solar da fotófoba - notívaga, em vazão escalarte sobre o caro tapete), começou uma nova busca. Busca por comida. Ainda tinha fome.


   
OLHOS VERDES, diz: " Oi, quem é vc...?"
   
HYERONIMUS, diz: "...tenho fome..." 

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Shakespeare em Bangú

Jorge Luiz da Silva Alves


          De certa forma, Bangú há muito deixara de ser um lugar interessante: a antiga fábrica que servira de cenário para o filme "Olga" virou um enorme "campus" para indolentes e pernósticos; a Mocidade Independente arrastava-se melancolicamente no Grupo Especial das Escolas de Samba; o clube que já beirara o título brasileiro e amedrontara alvacentos elefantes da bola, vagueava pelas divisões subterrâneas do inferno profissional;  o poder que o zooesportismo auferira a poucos por ali e elevara o bairro à condição de viga-mestra da malandragem guanabarina, definhava junto às fortalezas erigidas em louvor à glória andradina, parasitárias, feito ervas daninhas entre os paralelepípedos desde à Francisco Real, passando pela Boiobi até os contrafortes da Pedra Branca, o ninho das águias cariocas - mil e vinte e quatro metros de altitude prepotente testemunhando o ocaso dos soberanos da contravenção. Bangú, em verdade, afogava-se nas charnecas de sua própria insignificância recente: gente amorfa, letárgica, talvez por conta do calor mais causticante da cidade. Talvez...

                ...mas, na Rua da Feira, a pasmaceira sofria um rude golpe: sediciosos por substância, Lucas e Rosane travavam mais um confronto pela audiência involuntária da vizinhança; palavreado chulo e revelações constrangedoras eram apresentados a quaisquer perambulantes sem o menor resquíscio de censura; no sobrado mais antigo do bairro, ofensas e baixo-calão transitavam livremente desde o nascer até o pôr-do-sol; e como ambos eram fidalgos de respeitáveis tribos contraventoras, o espetáculo assumia proporções shakespearianas - Ranulfo, pai de Rosane, prometera Fátima, a irmã caçula (modelito Malhação, olhos do mais puro jade e madeixas louras) para Irineu (herdeiro dos caça-níqueis em 28 cidades do interior do estado), somente se a primogênita (dona de um gênio terrível) casasse antes. Justo Rosane, carinhosamente alcunhada por todos na rua como "Maga Patalógika", desbocada e visceral feito bruxa.


         É difícil chover em Bangú, um bairro encastelado num vale arizônico; porém, Lucas surgiu na vida de Rosane trazendo chuva. E daquelas torrenciais pancadas - águas de março fechando verão, alagando ruas, bueiros em borbotões devolvendo o descaso dos ignotos quanto à mais rudimentar profilaxia urbana.  Arruinado descendente do clã das rinhas e esporões, Lucas-de-maus-bofes dispensara passistas e dondocas festivas por amor à mulher da venta virada e sem papas na língüa; o bronco sentira-se mais à vontade com o papo reto e a letra firme da desbocada. O problema: se Rosane, sozinha, já era autêntica mina terrestre no explodir convívios, com semelhante consorte pareciam sangüinários templários numa cruzada dantesca em nome do amor - a felicidade de tão excêntrico casal era motivo para cuidados terceiros, dada a poderosa manifestação de suas naturezas;  e raiva de ambos com alguém...bom: um "evento que leva à extinção", por aí. Acontecera de tudo no casamento, desde acirrado bate-boca em pleno altar com a assistência da paróquia  gargalhando gostosamente até a briga generalizada por conta de destemperos mútuos (ele, por achar o buffet uma merda; ela, por achar que uma das madrinhas era a "piranha d'estimação" do canalha...). Fosse como fosse, a vida do bairro, após aqueles esponsais pirotécnicos, jamais fôra a mesma. Tanto que Ranulfo e muita gente nem dera conta quando Fátima, a 'bela dos olhos de jade', dispensara o enfadonho Irineu por silente amor à Maria José, vulgo "Sete Léguas", buço marcado e calcanhotamente talentosa de gogó: àquela altura do campeonato, toda a atenção da família estava muito mais voltada para o foco interminável de incêndio a incinerar a Rua da Feira e todo o pachorrento bairro de Bangú: Lucas e Rosane, Petruchio e Catarina, Stratford-On-Avon abaixo do equador, quarenta graus à sombra, sob a proteção de São Jorge, padroeiro da guerra e de casais guerreiros que não se deixam conduzir pelo Paratodos-de-nós-todos. Para todos os efeitos, na próxima grita de esquina, cerquem a milhar da cobra (09); dezesseis é Leão, e vinte e dois, Tigre. Ogum e Iansã agradecem!   

domingo, 19 de setembro de 2010

O Reino da Consciência


     


     Nas profundezas da agonia, Ganga Zumba dera seu último grito, Zumbi comandara a derradeira carga contra o tacão do Jorge Velho e, por três séculos, este trecho ao sul do equador ficara à mercê do imobilismo histórico-social; mesmo com notícias alvissareiras porém preocupantes da revolução de Dessalines no Haiti e do sacrifício do Honesto Abe pela liberdade negra na América, os ventos que paralisaram a Igualdade e o Humanismo trouxeram, também, as sementes do progresso imperial direto de Caiena e do Oiapoque para o Vale do Paraíba e Oeste paulista: pela ascensão do rei café, a Abolição era assunto tratado com reservas – assim como a sua implantação, lenta, gradual e segura...receita-padrão para diversas decisões políticas no Brasil ao longo das décadas perdidas com cautelas. Por fim, a Regente pôs fim ao tormento de poucos remanescentes ainda sob correntes e iniciou o encadeamento da sociedade brasileira no abismo das desigualdades respaldadas por votos de cabresto e oligarquias latifundiárias. A servidão, antes assunto de abolicionistas e filantropos, alcançou sua máxima extensão nas fábricas mal aparelhadas e desumanas; os cativos não tinham cor , idade ou sexo certos, trabalhava-se até vinte horas seguidas e não havia legislação para garantir a integridade física ou previdenciária de quem quer que fosse. Mas, ainda que o pioneirismo do caudilho de São Borja aplacasse um pouco dos abusos consolidando direitos trabalhistas, restava a desigualdade social – uma crosta muito agreste, resistente ao andar das carruagens democráticas ou tecnológicas.

       Aqui estamos, milênio e século novos, cabeças arejadas por fumegantes mudanças nas gêmeas torres do conservadorismo capitalista; a selvagem investida do neoliberalismo resultou numa forçosa abolição de privilégios, negros subindo em púlpitos antes ocupados por caubóis, pescadores de almas ameaçados em tronos de ouro por revelações madalênicas, caçadores de marajás e sorbônicos das Cayman prestando reverências ao sucesso de operários mutilados pelo preconceito...mesmo reconhecendo que ainda há consideráveis questões para equalizar a voz da Igualdade (como no caso das cotas para negros), o grito de Ganga Zumba e o sacrifício de Zumbi não foram em vão: além da abordagem puramente da negritude, ele perdura como um berro insuportável contra o abuso do homem pelo homem, a (ainda persistente) cantilena de cativos na senzala das comparações por conta da cor da pele ou, pior, o deplorável pelourinho do pedigree – se imigrante caucasiano, uralo-altaico, chinês ou semita, desmerecendo sempre os oriundos do nordeste, norte, Rio, ou seja lá onde for, neste gigantesco tumbeiro de hipocrisias chamado Brasil e sua saga pelos mares infestados de cinismo e recalques habilmente encobertos...

     ...pois, em verdade, o grito dos Palmares – e não a pena dos Positivistas – é quem realmente gravara a inscrição e as estrelas no surrado cetim da bandeira de nossa miscelânica pátria, futuro e cobiçado Reino da Consciência.

sexta-feira, 17 de setembro de 2010



Escorpianamente falando...


         Por vezes, é preciso retrucar em latim às ameaças e desafios que a vida te oferta: "Sivis Pacem Para Bellum" - se queres a paz, prepara-te para a guerra - , e sei bem do que falo: uma escolta bem municiada de vida e destemor para singrar pelos mares infestados de piratas belicosos, armados na fina ironia da humilhação sutil e de bom gume; uma daquelas estocadas num ambiente de luzes, pós, uísques e sorrisinhos à sorrelfa; ter mosqueteiros vigilantes ao seu lado, para que nada te escape numa provável escaramuça de vaidades, regadas à entorpecência dos neurônios mais cautelosos. Descer aos infernos apenas para acender um simples cigarro, feito o escorpião que devora crias e detona amizades falsas e interesses escusos, mesmo que tais tenham acompanhado tua vida desde o berço - mas, agora, são dignos da mais funesta "vendetta" siciliana, traiçoeiros demônios da noite que vendem amigos por meio copo de conhaque, promoções, vagas na seção ou por causa duma barra-de-saia-ordinária. Faço-me à pista neste sábado com meus diletos escorpiões de flanco -  certo de que a noite, mais do que uma festa, é um campo minado...e eu, particularmente, adoro andar no abismo!!! 

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

A Cigana jaz sob o Lobo

     


     Cigana boa pressente nas runas da libido, alvíssaras da carne e um suave eflúvio entorpecendo o ar pachorrento das mesmices; sabe que a tempestade se avizinha do corpo pois a alma reage e a perna cambaleia, a voz embarga e o pensar se confunde na refrega intensa entre razão e emoção... no olhar, a fome por um lobo espumante e eriçado por sua tez rosada; ribombante badalo meriodional alerta-a; e os mamilos túrgidos esticam a seda fina da feiticeira, todos denunciando aos seis sentidos da fêmea acuada que nenhum de seus cadinhos e alfarrábios de sedução e magia serão suficientes para escapar da lupo-ameaça que estraçalhará sua vulvo-imponência...Cigana realmente boa nos presságios de sua aguda sexualidade sabe, ao fitar um lobo nos olhos, que chegou a derradeira hora de virar repasto...

Fogo, universo, Ravel e terra vermelha



         É consenso, entre alguns especialistas no assunto, que a primeira e decisiva marca da evolução da espécie humana ocorrera quando um curioso hominídeo, furtando-se ao pavor que assaltara seus iguais ao sopé dum incandescente vulcão cenozóico, tomou em suas mãos um tição flamejante - vencendo o medo, domesticava-se, assim, a Natureza, eis o advento prático do Fogo na História. O mais belo dos quatro elementos, marca indelével do alvorecer tecnológico do Ser Humano, a chama determinou o ritmo de religiões, impôs o domínio do Homem sobre todas as coisas entre o Céu e a Terra; essa mesma chama que arde no interior de nossos corpos já pertencera a estrelas hoje desaparecidas, das quais só o distante lume chega-nos, claudicante, efêmero, mas sempre real aos olhos e à alma. De uma longínqüa manifestação astronômica nos confins do Infinito, a certeza: a Luz se propaga e atinge-nos fundo, tocando-nos quase que musicalmente, independente das distâncias...

          Só fui perceber que a Chama elevara-se no meu peito quando recebi teu último e-mail - aquele que falava das recentes juras de um amor que faiscava tão longe mas sabia existir; desconheci por completo as intermináveis horas no incômodo assento do carro-leito e fui atrás de um brilho espetacular em sonho e magia; não dei conta de quantas pontes e rios atravessei ou quantas paradas ocorreram até o lugar da terra vermelha; mas vermelho em expectativa ardia, naquela calorenta manhã dentro de uma livraria onde, distraído com esoterismo literário, só percebi a tua abordagem quando o sorriso moreno cercado por colorida roupagem e bela madeixa descolorida manifestou-se diante de mim. Não é sempre que se pode, a olho nu, testemunhar um evento cósmico de rara beleza como o que me fôra ofertado ao aproximar-se sem perguntas, num beijo espetacular que desvendava os segredos siderais envoltos em tanta espera e angústia; da mesma forma que Einstein revelara, o tempo fora da Terra flui de modo diferenciado, lento - parecia, naquele quarto de hotel para onde fomos, que o tempo desgarrara-se de nós, as camareiras e garçons e hóspedes e carros, tudo o mais voava ao nosso redor feito cometas enquanto flutuávamos na volúpia inicial de quando nos apresentamos; nem mesmo a noite fôra-nos criança, pois enquanto torres de chopes e cascatas em animações fluíam entre os convivas do restaurante, estávamos bem abrigados na Arca da Paixão, minhas mãos indóceis e convidativas perscrutavam por entre tuas coxas enquanto dirigias e alcançavam de tal forma o Ararat seguro da tua libido devidamente umedecida, que não nos restara outra alternativa senão estacionar no breu de um dos muitos parques e incendiarmos nossos corpos com o calor sagrado da entrega e loucura, você despida no meu colo urrando enquanto recitava-te a mais nova safadeza na sinfonia dos feitiches, tresloucado bolero de Ravel(*) sacudindo o carro, o clímax alcançado no exato instante em que os arautos da Moral e Bons Costumes aproximaram-se, fardados e severos em complacente reprimenda - afortunados pela clemência de Eros e Pã, saímos do bosque urbano para caírmos em outro holocausto prazeiroso... e a cada entrega do dízimo da carne, o fogo que alimentava nossas almas sedentas por eternidade aumentava mais e mais, dando-nos a certeza de que o amor necessitava da domesticação deste singular elemento da Natureza em nossos corpos e vidas. Nos confins do Universo, na distante fronteira final existente em nossos íntimos, descobrimos - exaustos, porém felizes - atingir um estágio supraevolutivo de cabal importância para a concretização de nossos sonhos quando, em silente e emocionado uníssono na rodoviária, declaramos amor eterno um pelo outro antes do adeus...

         ...não importa a distância, não são necessários quaisquer teoremas acêrca dos mistérios que envolvem a propagação da Luz no universo insondável, mesmo quando sua origem já tenha sido engolfada pelos milhões de anos-luz no Cosmo; tampouco importa se o hominídeo que habita em nós perdera o fio da humanidade quando passou do toque inocente num desconhecido tição para o laser fotônico do Hubble; o importante é que, ao final da jornada, a Luz mostrará toda a sua verdadeira beleza e magnificência, ao ofuscar nosso ceticismo quanto à necessidade em ser feliz. Exatamente a mesma felicidade demonstrada por Colombo quando, entre névoas, vislumbrara o Novo Mundo, descobri a minha América num lugar de terra vermelha feito fogo. Sob o crepitar auspicioso dum sorridente rosto moreno. Embalado pela subjugante melodia do amor tal um Bolero de Ravel(*).